2035: e se a Palantir se tornar mais poderosa do que muitos Estados?

Defesa, saúde, energia, polícia, NATO — a Palantir está em todo o lado. Em 2035, poderá saber mais sobre o mundo do que a maioria dos Estados.

Este não é um exercício de futurologia. É uma projeção baseada em tendências reais que já estão em curso. Se a Palantir continuar no ritmo atual de expansão — defesa, inteligência, polícia, saúde, energia, logística, fronteiras, infraestruturas críticas e administração pública —, daqui a dez anos poderá ocupar uma posição que nenhuma empresa privada ocupou antes: ser mais poderosa, em termos de informação e influência, do que a maioria dos Estados soberanos.

O mapa da presença da Palantir em 2026

Vejamos onde a Palantir já está hoje:

  • Defesa: Maven Smart System no Pentágono e na NATO. TITAN no Exército dos EUA. Contratos com aliados da NATO.
  • Inteligência: Relação histórica com a CIA e agências de informação americanas. Presença na DGSI francesa (a ser substituída) e em serviços de informação aliados.
  • Polícia: Contratos com forças policiais nos EUA e Reino Unido, incluindo análise preditiva de criminalidade.
  • Saúde: NHS britânico. Análise de dados hospitalares e logística de vacinação durante a pandemia.
  • Energia: NESO — operador da rede elétrica britânica. Gestão de dados de infraestruturas críticas.
  • Logística: Otimização de cadeias de abastecimento militares e civis.
  • Fronteiras: Sistemas de análise de dados para controlo fronteiriço.
  • Infraestruturas críticas: Proteção de ativos estratégicos.
  • Administração pública: Análise de dados governamentais, segurança social, gestão de fraudes.

Nenhuma empresa na história teve acesso a tantos dados tão sensíveis em áreas tão distintas da vida de um país.

O poder da plataforma integrada

A Palantir não vende software avulso. Vende a plataforma Foundry — um sistema que integra, limpa, analisa e apresenta dados de qualquer fonte. Uma vez que uma organização adota a Foundry, a saída é tão custosa que a dependência se torna estrutural. Isto é visível no contrato da NESO, onde a operadora da rede elétrica britânica admitiu que não podia substituir a Palantir por razões técnicas e de risco.

Agora imagina que, em 2035, a Foundry (ou sua sucessora) está a processar dados de defesa, inteligência, saúde, energia e administração pública de dezenas de países. A Palantir teria, na prática, uma imagem mais completa do funcionamento dessas sociedades do que qualquer entidade individual — incluindo os próprios governos.

O poder de interpretar dados é o poder de definir a realidade

Quem controla a camada de análise de dados controla a narrativa. Se a Palantir define o que é um padrão suspeito, o que é uma ameaça, o que é uma anomalia, está a influenciar decisões de defesa, segurança, polícia e administração pública de forma estrutural.

Isto não requer má-fé. Basta que os algoritmos reflitam os pressupostos, prioridades e vieses de quem os desenha — uma empresa americana com uma cultura organizacional e valores específicos.

O que muda quando a empresa é cotada em bolsa

A Palantir está cotada na NASDAQ (PLTR). Isto significa que está sujeita a pressões de resultados trimestrais, à volatilidade do mercado e à possibilidade de aquisição hostil. Se um governo adversário comprasse uma participação significativa, ou se a empresa mudasse de mãos, todos os dados e sistemas que processa ficariam potencialmente comprometidos.

Por enquanto, o CEO Alex Karp e o co-fundador Peter Thiel mantêm o controlo através de ações com direito a voto privilegiado. Mas isto pode mudar. E se mudar, as implicações para a segurança nacional de dezenas de países são incalculáveis.

A projeção para 2035 não é uma profecia. É um convite à reflexão: estamos a caminhar para um mundo onde uma empresa privada tem mais dados, mais capacidade de análise e mais influência sobre decisões críticas do que a maioria dos Estados soberanos. A Palantir não é a única empresa nesta trajetória — Google, Microsoft, Amazon e outras também acumulam poder informacional. Mas a Palantir é única na sua proximidade ao aparelho de segurança e defesa do Ocidente.

A pergunta que fica não é se a Palantir vai querer esse poder. É se os Estados vão perceber a tempo o que estão a ceder.

Nuno Cabeça
Nuno Cabeça

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