Para além do chatbot: a nova geração da engenharia de IA
Enquanto o grande público continua a associar Inteligência Artificial a chatbots e geradores de imagens, quem está realmente a construir a próxima geração de aplicações de IA debate-se com problemas bem diferentes. É precisamente esse o foco da Lisbon AI 2026, a conferência integrada na Lisbon AI Week que decorre nos dias 23 e 24 de setembro na Fundação Champalimaud, em Belém.
Com capacidade limitada a 400 participantes — engenheiros, investigadores e builders que “shipam” IA em produção —, a conferência organiza-se num formato de palco único, sem salas paralelas, para que ninguém perca uma conversa. A escolha do local não é inocente: o Centro Champalimaud, também conhecido como “Centro do Desconhecido”, é um campus de investigação virado para o rio, em Belém, que convida à reflexão e à troca de ideias — bem longe do ruído dos centros de congressos tradicionais.
Agentes de IA: o salto de “usar” para “construir”
Um dos temas centrais da edição de 2026 são os agentes de IA. Se 2023 e 2024 foram os anos dos LLMs e dos chatbots, 2026 é o ano em que a conversa migrou para sistemas autónomos: agentes que não se limitam a responder a perguntas, mas que planeiam, executam tarefas, utilizam ferramentas e tomam decisões em contexto.
A discussão técnica vai muito além da demonstração de capacidades. Os developers que participam na Lisbon AI 2026 querem saber como orquestrar múltiplos agentes, como garantir fiabilidade em produção, como lidar com alucinações em contextos críticos e como avaliar sistemas que não têm uma resposta “certa” pré-definida. É engenharia de sistemas, não ciência de laboratório.
AI Engineering: o que está a mudar na profissão de programador
A conferência dedica espaço significativo ao que está a mudar na forma como se programa. A integração de modelos de IA nos pipelines de desenvolvimento, a adoção de ferramentas de coding assistido, e a emergência de novos padrões de arquitetura — como o RAG (Retrieval-Augmented Generation) e os agentes com ferramentas — estão a redefinir o que significa ser programador em 2026.
Não se trata apenas de “usar o ChatGPT para escrever código”. A conversa na Lisbon AI 2026 é sobre design de sistemas, avaliação de modelos, segurança em pipelines de IA e decisões de arquitetura que determinam se uma aplicação com IA escala ou falha em produção. É uma discussão que interessa a qualquer developer que queira perceber para onde caminha a profissão.
Modelos especializados e ferramentas para builders
Outro eixo forte da programação é a diversificação dos modelos. A conversa já não se resume ao “qual o melhor LLM generalista”. Os builders querem saber como escolher modelos especializados para tarefas específicas, como fazer fine-tuning com eficiência, como avaliar trade-offs entre modelos locais e APIs externas, e como construir pipelines que combinam vários modelos em cascata.
A vertente open-source tem presença forte na conferência. A organização da Lisbon AI é comunitária — feita por pessoas que “shipam” open-source para viver — e todos os speakers apresentam código. Todas as talks são transmitidas ao vivo. O ethos é de partilha e transparência, não de vendas ou marketing.
O que esperar de dois dias na Champalimaud
A Lisbon AI 2026 arrancou em 2025 como um “group chat de hackers que sentiam falta do LXJS” e queriam um evento europeu focado em builders, não em buyers. Em 2026, cresceu para 29 speakers e 400 participantes, mas manteve o espírito: single-track, open-source, ético por design (código de conduta, curadoria diversa e bolsas de acesso).
Para os desenvolvedores portugueses, a conferência representa uma oportunidade rara de discutir IA ao lado de quem está a construir as ferramentas que eles próprios usam. E para quem quer perceber para onde vai a engenharia de software — a resposta pode muito bem estar numa sala da Fundação Champalimaud em setembro.







