Mais do que uma conferência, um retrato do ecossistema
Se queres perceber para onde vai a Inteligência Artificial em Portugal, não olhes para comunicados de imprensa ou relatórios de consultoras. Olha para os temas que estão a dominar a Lisbon AI Week. A segunda edição do evento, que decorre em Lisboa entre 21 e 27 de setembro de 2026, funciona como um verdadeiro raio-X do ecossistema nacional de IA — e a diversidade da programação diz muito mais do que qualquer estudo de mercado.
A organização abriu a open call para quatro categorias — Tech, Business, Art e Social/Ethics — e o resultado é um programa que reflete as várias velocidades a que a IA está a ser adoptada, construída e discutida em Portugal.
Dos hackathons aos debates éticos: a diversidade da programação
Hackathons e builders
Os hackathons são um dos termómetros mais fiáveis do ecossistema. Na edição de 2025, o hackathon FORGe, organizado pela NOVAe (o clube de empreendedorismo da NOVA IMS), reuniu 100 estudantes de 16 faculdades durante 26 horas ininterruptas. Para 2026, estão já confirmados eventos como o Supabase Lisbon AI Hackathon, dedicado à construção com as ferramentas de IA mais recentes, e a AI Hacker House — Equinox Edition, organizada pela LayerX na DeHouse Picoas. A mensagem é clara: quem está a construir IA em Portugal não está à espera de autorização.
Machine Learning e AI Engineering
A vertente técnica é um dos pilares da semana. A conferência Lisbon AI 2026, que decorre a 23 e 24 de setembro na Fundação Champalimaud, é o expoente máximo desta dimensão: 29 speakers, 400 builders, foco total em agentes, modelos, applied AI, evals e segurança. Mas há dezenas de workshops e meetups espalhados pela cidade que cobrem desde arquitecturas de sistemas de machine learning até debugging de modelos em produção. O nível técnico revela uma comunidade que já não está a aprender os básicos — está a resolver problemas reais de engenharia.
Cibersegurança e IA
A segurança em IA ganhou palco próprio. A AI Security Night, integrada na programação da Lisbon AI Week, reflete uma preocupação crescente: se a IA está a ser adoptada em produção, quem garante que é segura? Estudos recentes mostram que mais de 80% dos modelos avançados de IA continuam suscetíveis a manipulações sofisticadas, e a comunidade portuguesa está a responder organizadamente.
IA aplicada aos negócios
A categoria Business atrai um público diferente: gestores, founders, decisores. Os eventos nesta área focam-se em casos práticos de implementação, retorno de investimento e transformação organizacional. É aqui que se percebe que a adoção de IA em Portugal já não é uma curiosidade de departamentos de I&D — está a entrar nas PME, na administração pública e nos processos core das empresas.
Arte, ética e sociedade
Uma das dimensões mais originais da Lisbon AI Week é o espaço dedicado à arte e à reflexão social. Instalações de arte generativa, performances com IA e debates sobre direitos de autor, desinformação e o futuro do trabalho fazem parte do programa. Esta aposta mostra que o ecossistema português não quer discutir IA apenas nos termos da engenharia — quer confrontar as questões mais incómodas.
Comunidades: o tecido fino que sustenta tudo
A programação da Lisbon AI Week não é imposta de cima para baixo. Cada evento é proposto e organizado por comunidades, empresas, universidades ou colectivos de artists. Isto significa que o programa final é uma agregação genuína do que a comunidade está a fazer — e não o que um comité organizador acha que devia estar a fazer. Comunidades como a GenAI Lisboa, os AI Tinkerers e vários grupos de meetups técnicos têm presença confirmada, o que revela um tecido associativo robusto e activo.
O que isto nos diz sobre o estado da IA em Portugal
Olhando para a diversidade da programação, há várias conclusões que se podem tirar. Primeiro: o ecossistema português de IA já não é apenas sobre chatbots e LLMs — há agentes, segurança, arte, ética e negócios a serem discutidos em paralelo. Segundo: a comunidade está organizada e a produzir conteúdo de qualidade, com eventos que vão desde o nível introdutório até ao mais avançado. Terceiro: há uma procura real por espaços de discussão que vão além da tecnologia pura, como mostram as categorias de arte e ética.
A Lisbon AI Week é, no fundo, o melhor espelho do ecossistema de IA português. E o que o espelho mostra é um ecossistema mais maduro, mais diverso e mais confiante do que há dois anos. Se queres perceber para onde vai a IA em Portugal, a agenda da Lisbon AI Week é o melhor lugar para começar.







