A Europa fala cada vez mais de soberania tecnológica e autonomia estratégica. Mas, na prática, está cada vez mais dependente de uma empresa norte-americana para processar dados sensíveis nas áreas da defesa, segurança, saúde e infraestruturas críticas. A Palantir está em toda a parte — e a recente polémica no Reino Unido, onde a operadora da rede elétrica britânica atribuiu um contrato de 21 milhões de libras à Palantir sem concurso público, expõe o dilema europeu de forma brutal.
O caso NESO: quando a dependência técnica impede a concorrência
A 8 de setembro de 2026, o National Energy System Operator (NESO) — a entidade que gere a rede elétrica britânica — renovou o contrato com a Palantir por 21,2 milhões de libras através de uma adjudicação direta, sem qualquer concurso competitivo.
A justificação dada pelo NESO é reveladora: os sistemas existentes estão tão dependentes da plataforma proprietária Foundry da Palantir que substituí-la implicaria reconstruir todo o ambiente de análise, migrar dados, reacreditar sistemas de segurança e retreinar equipas — um custo e um risco operacional considerados inaceitáveis. O contrato, que vigora de setembro de 2026 a julho de 2027, foi atribuído ao abrigo da exceção de “ausência de concorrência por razões técnicas” prevista no Procurement Act 2023 do Reino Unido.
Este é o paradoxo da dependência tecnológica: quanto mais um sistema se integra numa plataforma proprietária, mais difícil — e mais caro — se torna sair dela.
França: a revolta silenciosa contra a Palantir
A França é, neste momento, o caso europeu mais claro de resistência à Palantir. A DGSI (Direção-Geral da Segurança Interna) decidiu substituir progressivamente os sistemas da Palantir pela francesa ChapsVision, como parte de uma estratégia assumida de soberania digital e proteção de dados.
O CEO da Palantir, Alex Karp, respondeu publicamente, afirmando que a aposta francesa na soberania digital estava a “sair pela culatra” e que a alternativa europeia não tinha a mesma capacidade. Mas o governo francês manteve a decisão: para a DGSI, ter dados de segurança interna processados por uma empresa sujeita à lei americana é um risco estratégico inaceitável.
Alemanha: 30 alternativas em avaliação
A Alemanha está a seguir um caminho diferente. Em vez de substituir a Palantir por um único fornecedor, a Bundeswehr (Exército alemão) excluiu um sistema baseado no Maven e está a avaliar cerca de 30 sistemas alternativos, maioritariamente alemães e europeus. O protótipo está apontado para 2027, com implementação prevista para 2028.
A abordagem alemã revela uma preocupação dupla: não querer depender de um fornecedor americano, mas também não querer trocar uma dependência por outra — neste caso, francesa. A prudência alemã é compreensível, mas o tempo necessário para avaliar 30 sistemas contrasta com a velocidade a que a Palantir se consolida no terreno.
Thales HexaForce: a alternativa europeia ao Maven
A francesa Thales lançou o HexaForce, um sistema de comando e controlo com IA desenhado especificamente para a NATO como alternativa soberana ao Maven Smart System da Palantir. No entanto, até ao momento, o HexaForce não conseguiu desalojar o Maven nos quartéis-generais da Aliança — a NATO continua a preferir a plataforma americana, que atingiu a capacidade operacional total em junho de 2026.
O dilema europeu: soberania ou capacidade?
A Europa enfrenta uma escolha difícil. Por um lado, a dependência da Palantir significa que dados estratégicos de defesa, segurança e infraestruturas críticas são processados por uma empresa privada norte-americana, sujeita à lei dos EUA (nomeadamente a Cloud Act, que permite ao governo americano aceder a dados armazenados por empresas americanas, mesmo que estejam na Europa).
Por outro lado, as alternativas europeias — ChapsVision, HexaForce, as 30 opções alemãs — ainda não provaram ter a mesma escala, maturidade e integração que a Palantir oferece. A questão não é apenas de preço ou capacidade técnica: é de confiança geopolítica.
A dependência europeia da Palantir não é um acidente. É o resultado de anos de investimento insuficiente em alternativas soberanas, de decisões comerciais que priorizaram a funcionalidade imediata em detrimento da autonomia estratégica, e de um fosso tecnológico que a Europa ainda não conseguiu fechar. O contrato da NESO, a decisão francesa e a hesitação alemã mostram que o continente está a acordar para o problema. Mas acordar é diferente de resolver.








