Como um grupo de engenheiros transformou um “moonshot” numa empresa de neurotecnologia
Todas as grandes empresas de tecnologia começam com uma história. A da Halo NeuroAI começa dentro da Unbabel, uma das startups portuguesas de maior sucesso internacional, fundada em 2013 e especializada em tradução automática com IA. Mas a narrativa da Halo não é a de um spin-off convencional — é a de um projeto de investigação ousado que evoluiu de protótipo a produto clínico, e que representa um caso raro de como o ecossistema português consegue transformar investigação financiada publicamente numa empresa com potencial global.
Da Unbabel ao Center for Responsible AI
A Halo nasceu, segundo os seus fundadores, como um “moonshot project” (projeto ambicioso de alto risco) na Unbabel, apoiado pelo Center for Responsible AI — um consórcio que envolve 10 startups, 8 centros de investigação e 1 escritório de advogados, focado no desenvolvimento de produtos de IA fiável e responsável. O objetivo inicial era ambicioso: usar IA generativa para devolver a voz a pessoas que a perderam.
O projeto partiu de uma premissa simples mas poderosa. Se a Unbabel já usava IA para traduzir texto entre línguas, porque não usar a mesma tecnologia para “traduzir” sinais neurais em linguagem? Esta interseção entre processamento de linguagem natural e interfaces neuronais deu origem à tecnologia que hoje é o núcleo da Halo.
O papel do PRR na inovação portuguesa
O financiamento público, nomeadamente através do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), desempenhou um papel crucial no desenvolvimento da Halo. O Center for Responsible AI, que apoiou o projeto inicial, é financiado no âmbito da agenda de inovação da “Nova Geração de Indústria” do PRR, demonstrando como os fundos europeus podem catalisar investigação de alto risco que dificilmente conseguiria financiamento privado numa fase inicial.
Este caso é particularmente relevante para o ecossistema português. Demonstra que o investimento público em ciência e inovação pode gerar resultados tangíveis — não apenas papers académicos, mas produtos reais que estão a mudar a vida de pessoas.
Do protótipo aos primeiros pacientes
O percurso da Halo seguiu várias etapas: começou como projeto de investigação dentro da Unbabel, passou para protótipo funcional, foi testado com os primeiros pacientes com ELA e afasia, e finalmente avançou para uma empresa independente — a Halo NeuroAI. Atualmente, está em processo de validação clínica em doentes de UCI, com o objetivo de demonstrar a eficácia da interface neural não invasiva em contextos críticos.
O cofundador Manuel Fernandes partilhou publicamente que a primeira versão pública da Halo já restaurou mais de 823 minutos de voz. A tecnologia está disponível gratuitamente na sua versão base (app, extensão de browser e assistente de IA), com a headband a representar o próximo passo na evolução do produto.
A ligação entre startups e centros de investigação
A história da Halo ilustra a importância de pontes sólidas entre o meio académico, a investigação aplicada e o empreendedorismo. Num ecossistema como o português, onde o financiamento de risco é limitado comparado com Silicon Valley, a capacidade de alavancar centros de investigação e programas públicos de financiamento é um fator crítico de sucesso.
O Center for Responsible AI funcionou como o ambiente ideal para um projeto de alto risco amadurecer antes de enfrentar o mercado. A presença de múltiplas startups e centros de investigação no consórcio permitiu acesso a talento, conhecimento e infraestrutura que uma equipa isolada dificilmente conseguiria reunir.
Como uma empresa portuguesa pode transformar investigação em produto global
A Halo NeuroAI está a escrever um dos capítulos mais interessantes da história recente do empreendedorismo tecnológico português. Representa a maturação de um ecossistema que já não se limita a copiar modelos de negócio estrangeiros — está a criar tecnologia original, baseada em ciência, com potencial para competir globalmente.
A pergunta que fica é: quantas Halo NeuroAI existem à espera de sair dos laboratórios e centros de investigação portugueses? O exemplo da Halo sugere que a resposta depende tanto da qualidade da investigação como da capacidade de criar pontes entre o laboratório e o mercado.








