Portugal atribuiu mais 1,8 milhões de euros do PRR à próxima fase da Amália, um modelo de linguagem treinado em português europeu. O projeto prevê capacidades multimodais e futura integração nos serviços públicos, incluindo a aplicação Gov.pt.
A Amália pretende reforçar a soberania digital, a privacidade e a adequação ao contexto português, embora não deva competir com os grandes modelos internacionais em capacidade geral. O acesso a dados jornalísticos para treino também levanta questões de direitos de autor e licenciamento.
O Governo anunciou mais 1,8 milhões de euros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para a próxima fase da Amália, o modelo de IA desenvolvido em Portugal e treinado em português europeu. O objectivo é ambicioso: deixar de ser um protótipo e passar a apoiar o atendimento nos serviços públicos, incluindo a aplicação Gov.pt. Mas será que Portugal precisa de uma IA própria? E, mais importante, conseguirá a Amália competir com modelos que custam milhares de milhões de dólares a treinar?
O que é a Amália e o que se segue
A Amália é um modelo de linguagem de grande escala (LLM) desenvolvido em Portugal, com a particularidade de ser treinado especificamente em português europeu — algo que a maioria dos modelos internacionais, treinados maioritariamente em inglês, não faz bem.
Nesta nova fase, financiada com 1,8 milhões de euros do PRR (num investimento total que ronda os 7 milhões de euros), a Amália vai ganhar capacidade para interpretar texto, áudio e imagens — tornando-se multimodal. O Governo anunciou também que vai iniciar um diálogo com empresas de comunicação social para obter acesso a arquivos jornalísticos recentes para treinar o modelo.
O objectivo final é integrar a Amália nos serviços públicos, começando pelo atendimento ao cidadão através da aplicação Gov.pt.
Precisamos de modelos portugueses?
Esta é a questão central. Modelos como GPT-6 Astra, Claude, Gemini ou Llama são treinados maioritariamente em inglês. Embora falem português, fazem-no com um sotaque, com erros de concordância e, mais importante, com uma falta de sensibilidade cultural e contextual que é difícil de resolver com fine-tuning.
O português europeu é diferente do português do Brasil em mais do que o sotaque: a sintaxe, o vocabulário, as expressões idiomáticas e o contexto cultural são distintos. Um modelo treinado maioritariamente em português brasileiro vai soar estrangeiro a um utilizador português, e pode cometer erros em contextos administrativos, legais ou institucionais.
Para além disso, há a questão da soberania. Se a Administração Pública portuguesa depender de modelos de IA americanos ou chineses para processar dados de cidadãos, estamos a exportar a nossa capacidade de decisão — e os nossos dados.
IA soberana para a Administração Pública
O argumento mais forte a favor da Amália é o da soberania digital. Os dados dos cidadãos portugueses — informações fiscais, de saúde, educacionais — devem ser processados em infraestrutura controlada por Portugal ou pela União Europeia, ao abrigo do Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD).
Um modelo como a Amália, treinado e executado em Portugal, oferece garantias de privacidade e controlo que um modelo SaaS americano não pode oferecer. Além disso, permite que o Governo mantenha controlo sobre a evolução do modelo, adaptando-o às necessidades específicas da administração pública portuguesa.
No entanto, a soberania digital tem um custo. Desenvolver e manter um modelo de IA competitivo exige investimento contínuo em computação, talento e dados — e 7 milhões de euros são uma gota no oceano comparado com os orçamentos de investigação da OpenAI, Google ou Meta.
Que dados devem ser utilizados?
O Governo anunciou que vai dialogar com as empresas de comunicação social para obter acesso a arquivos jornalísticos. Isto levanta questões importantes sobre direitos de autor e licenciamento de dados de treino.
Os arquivos dos media nacionais são uma fonte rica de português europeu de qualidade, mas os jornais e revistas têm todo o direito de exigir compensação pela utilização dos seus conteúdos — como aliás está a acontecer a nível global com acordos entre empresas de IA e editoras.
Para além dos media, a Amália poderia beneficiar de:
- Documentos oficiais e legislação portuguesa — de domínio público e perfeitamente adequados para treino em contexto formal.
- Literatura portuguesa — desde que respeitando os direitos de autor.
- Conteúdo gerado por utilizadores em plataformas portuguesas, com consentimento adequado.
Poderá a Amália competir com os gigantes?
Honestamente, é improvável que a Amália venha a competir com GPT-6 Astra ou Claude 5 em termos de capacidade bruta. Os modelos de fronteira custam milhares de milhões de dólares a treinar e requerem infraestrutura computacional que Portugal não tem (nem provavelmente devia ter) escala para justificar.
Mas a competição não precisa de ser no mesmo ringue. A Amália pode — e deve — competir em nichos onde os modelos internacionais são fracos:
- Precisão em português europeu — compreensão de expressões, leis e contextos específicos de Portugal.
- Integração com serviços públicos — falar a linguagem do SNS, da Segurança Social, das Finanças.
- Privacidade e soberania — dados que nunca saem de Portugal.
Há inúmeros exemplos de modelos de IA nacionais bem-sucedidos que não competem directamente com os gigantes americanos, mas que servem necessidades específicas dos seus países — como o modelo alemão da Aleph Alpha ou o Mistral francês.
A Amália não vai derrotar o GPT-6 Astra no próximo ranking de benchmarks. Mas isso não é o objetivo. O valor da Amália está noutro lado: na capacidade de servir os cidadãos portugueses em português de Portugal, com respeito pela privacidade dos dados e com controlo soberano sobre a tecnologia. 1,8 milhões de euros é um investimento modesto para o que está em jogo. O importante é que o Governo continue a apostar — e que a Amália evolua para servir os portugueses onde eles mais precisam: nos serviços públicos.








