Halo NeuroAI: a startup portuguesa que quer transformar pensamentos em palavras

Da Maia para o mundo: a Halo NeuroAI usa IA generativa e interfaces neuronais não invasivas para transformar sinais cerebrais em comunicação.

Portugal está a desenvolver uma das aplicações mais fascinantes da Inteligência Artificial

Imagine pensar numa frase e vê-la transformada em voz, sem precisar de falar, escrever ou tocar num ecrã. Parece ficção científica, mas é exatamente o que a Halo NeuroAI está a construir na Maia, Porto. A startup portuguesa combina inteligência artificial generativa com interfaces neuronais não invasivas para restaurar a comunicação de pessoas que perderam a capacidade de falar.

Numa altura em que o mundo discute chatbots e geradores de imagens, a Halo NeuroAI representa uma aplicação profundamente diferente da IA — uma que não se limita a processar informação, mas que devolve uma capacidade humana fundamental: a voz.

Como funciona a interface neural

A tecnologia assenta num dispositivo portátil — uma headband (faixa de cabeça) equipada com sensores — que capta sinais bioelétricos do utilizador através de sEMG (eletromiografia de superfície). Estes sinais são depois interpretados por modelos de IA, que os transformam em linguagem. O sistema inclui também um hub central que coordena três modelos de IA especializados.

Ao contrário de soluções invasivas como a Neuralink, a Halo não requer cirurgia. Não precisa de calibração, funciona em qualquer lugar — dentro de um carro, num parque, em casa — e está desenhada para ser usada por qualquer pessoa, desde doentes com afasia até casos severos de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

O papel dos modelos de linguagem na transformação dos sinais

O segredo da Halo está na combinação de três componentes: a headband que capta os sinais neurais, modelos de linguagem personalizados que interpretam esses sinais e os convertem em texto, e um sistema de clonagem de voz que recria a voz original do utilizador a partir de apenas 15 segundos de áudio gravado.

Todo o processamento de clonagem de voz é feito localmente no dispositivo, garantindo a privacidade dos dados do utilizador. A comunicação atinge cerca de 30 palavras por minuto — três vezes mais rápido do que os dispositivos AAC (comunicação aumentativa e alternativa) tradicionais.

Os primeiros casos de utilização

A Halo já está a ser testada com doentes reais. Num dos primeiros casos públicos, Pedro S., uma pessoa com ELA, descreveu a diferença que a tecnologia faz no seu dia-a-dia: “Há muitas situações em que não tenho a tecnologia de eye-tracking disponível, especialmente ao ar livre, onde não funciona muito bem. A Halo preenche essas lacunas.”

Uma terapeuta da fala da APELA (Associação Portuguesa de Doentes com ELA) acrescentou: “Isto faz toda a diferença para eles — devolver-lhes a possibilidade de usar a sua voz natural de forma intuitiva e rápida.” O jornalista Alex Hern, do The Economist, entrevistou um utilizador da Halo e descreveu a experiência como “espantosa de testemunhar”. Nos primeiros testes, a Halo já restaurou mais de 823 minutos de voz.

Isto não é “ler pensamentos”

É importante sublinhar o que a Halo não é. A tecnologia não “lê pensamentos” no sentido místico ou invasivo da expressão. O que faz é captar sinais neurais relacionados com a intenção de comunicar e traduzi-los em linguagem através de IA. Não acede a pensamentos aleatórios, memórias ou emoções — apenas aos sinais que o utilizador intencionalmente gera para se expressar.

Esta distinção é crucial num momento em que o debate sobre neurotecnologia e privacidade mental está a ganhar tração. Ao manter o processamento local e ao focar-se exclusivamente na comunicação voluntária, a Halo marca uma posição clara sobre onde traçar a linha entre assistência e invasão.

Nuno Cabeça
Nuno Cabeça

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