Fluxo de IA a analisar conteúdos: documentos entram, são verificados e organizados em rede

A Internet está a morrer? Como a IA está a transformar a Web aberta numa coleção de respostas

A IA está a transformar a web aberta: 65% das pesquisas já não geram cliques. O impacto nos media, blogues e SEO na era das respostas geradas por IA.

Em 2025, a web aberta atingiu um marco silencioso e preocupante: cerca de 65% das pesquisas no Google terminam sem um clique num link externo. E quando um resumo gerado por IA aparece nos resultados, esse número salta para uns impressionantes 83% de pesquisas zero-clique. A pergunta que muitos se fazem é inevitável: a Internet como a conhecemos está a morrer, ou apenas a transformar-se em algo que ainda não reconhecemos?

O fenómeno zero-clique: o que está a acontecer

Antes da explosão da IA generativa, a web já caminhava para mais pesquisas sem clique. A SparkToro e a Datos documentaram que, em 2024, cerca de 64% das pesquisas no Google já não geravam um clique. A diferença é que a IA acelerou brutalmente esta tendência. Com a chegada dos AI Overviews da Google, os media e os blogues viram as suas visitas orgânicas cair entre 15% a 25%, de acordo com a Bain & Company.

O problema não é apenas a Google. O ChatGPT, o Perplexity, o Claude e o Gemini tornaram-se destinos de pesquisa por direito próprio. Em vez de abrir um browser e clicar em links, cada vez mais pessoas — especialmente as gerações mais jovens — simplesmente perguntam ao assistente e recebem uma resposta pronta. O clique deixou de ser o objetivo.

O impacto nos media e nos blogues

Para quem vive do tráfego orgânico, o cenário é sombrio. A Similarweb reportou que as pesquisas de notícias sem clique passaram de 56% para quase 69% entre maio de 2024 e maio de 2025. Isto significa que menos pessoas chegam aos sites de media, menos anúncios são vistos, e menos subscrições são geradas a partir de tráfego de busca.

Os blogues informativos — aqueles que explicam conceitos, dão tutoriais ou respondem a perguntas frequentes — são os mais afetados. O conteúdo que antes era ouro para SEO (perguntas do tipo “como fazer X” ou “o que é Y”) é agora resumido diretamente nos resultados de pesquisa, roubando visitas e receita a quem o produziu.

O SEO está a mudar, não a morrer

Isto não significa que o SEO acabou. Significa que o SEO está a evoluir para algo diferente. Se antes o objetivo era rankear no top 10 do Google para receber cliques, agora é preciso ser citado na resposta da IA. Isto exige uma abordagem diferente: conteúdo mais aprofundado, fontes autoritárias, e uma estrutura de dados que as IAs consigam interpretar e citar.

As estratégias que estão a funcionar em 2025-2026 incluem:

  • Conteúdo de autoridade — artigos originais com investigação própria, dados exclusivos e opinião diferenciada
  • Pesquisas de cauda longa — consultas muito específicas onde a IA ainda não consegue dar uma resposta satisfatória
  • Marca própria — quando as pessoas procuram diretamente o nome do site ou do autor, a IA não consegue substituir essa relação
  • Conteúdo multimédia e interativo — vídeos, podcasts, ferramentas e calculadoras que a IA não pode replicar

O caso português: entre a adaptação e a oportunidade

Em Portugal, o fenómeno ainda se sente de forma mais suave, mas a tendência é a mesma. O Governo português lançou o AMALIA, o primeiro modelo de linguagem aberto em português europeu, com um investimento de 5,5 milhões de euros. Iniciativas como o portal IA.gov.pt e o chatbot Evaristo.ai, da Universidade de Lisboa, mostram que a aposta institucional é integrar a IA nos serviços públicos — e isso passa inevitavelmente por menos cliques e mais respostas geradas por IA.

Para os criadores de conteúdo portugueses, a janela de oportunidade é clara: produzir conteúdo em português de Portugal, com autoridade local e perspetiva única, é algo que a IA global ainda não consegue replicar com qualidade.

Conclusão

A Internet não está a morrer. Está a passar por uma metamorfose tão profunda como a que viveu quando os motores de busca substituíram os diretórios manuais nos anos 2000. A web aberta continua a ser a base de treino, referência e indexação para toda a IA. Mas o modelo de negócio que sustentava media e blogues — tráfego gratuito de pesquisa a troco de cliques — está a desaparecer. Quem se adaptar a esta nova realidade, produzindo conteúdo que a IA não consegue roubar, vai sobreviver e prosperar. Quem continuar a fazer o mesmo de sempre, vai ver o tráfego definhar.

Nuno Cabeça
Nuno Cabeça

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