Da ideia ao modelo: 18 meses que mudaram a IA em Portugal
No dia 1 de julho de 2026, Portugal entrou para o seleto grupo de países com capacidade para desenvolver o seu próprio modelo de linguagem de grande escala (LLM). O AMALIA — Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial — foi disponibilizado em código aberto no HuggingFace, marcando o fim de um percurso de 18 meses que começou muito antes, com uma decisão política e um investimento público significativo.
Ao contrário do que muitos pensam, o AMALIA não apareceu subitamente em 2026. O projeto foi formalizado no final de 2024 e teve desde o início um plano de desenvolvimento faseado, com marcos concretos e calendarizados. Este artigo conta essa história.
O anúncio que marcou o início do projeto
A 11 de novembro de 2024, o Primeiro-Ministro anunciou o lançamento do primeiro Modelo de Linguagem em Grande Escala de língua portuguesa. O projeto, enquadrado na Agenda Nacional de Inteligência Artificial, tinha um objetivo ambicioso: criar um LLM ‘que fale português de Portugal’, capaz de reconhecer a cultura e a história nacionais e de assegurar a soberania digital do país.
O investimento inicial foi de 5,5 milhões de euros, financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e o calendário estendia-se por 18 meses. A este valor acrescia ainda o investimento já realizado em infraestrutura de computação, projetos de desenvolvimento e recursos humanos especializados.
O calendário de desenvolvimento faseado
O plano original previa três versões principais do AMALIA, cada uma correspondendo a uma etapa do desenvolvimento:
- Final do 1.º trimestre de 2025 — Versão beta: capaz de receber instruções em texto e responder em português europeu, aproveitando o trabalho já realizado nos projetos EuroLLM, GlórIA e v-Glória.
- Final do 3.º trimestre de 2025 — Versão base: com dados curados adicionais sobre língua, cultura e história de Portugal, permitindo respostas mais fiáveis e seguras, já com capacidade de integração em aplicações externas.
- Final do 2.º trimestre de 2026 — Versão multimodal: capaz de interpretar diversos formatos (texto, imagem e vídeo) e produzir respostas em português europeu com conhecimento contextual português.
O modelo cumpriu o calendário dentro dos prazos previstos, com a versão multimodal disponibilizada exatamente a 1 de julho de 2026, como anunciado.
As instituições que tornaram o AMALIA possível
O projeto foi liderado conjuntamente pela Ministra da Juventude e Modernização (com competência delegada do Primeiro-Ministro para a Inteligência Artificial) e pelo Ministro da Educação, Ciência e Inovação. A execução operacional ficou a cargo da Agência para a Modernização Administrativa (AMA, I.P.) e da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT, I.P.).
O consórcio de desenvolvimento foi liderado por três centros de investigação: o NOVA LINCS da Universidade Nova de Lisboa, o Instituto de Telecomunicações e o Instituto Superior Técnico, integrando ainda a Universidade de Coimbra, Universidade do Porto, Universidade do Minho, Universidade da Beira Interior, Universidade de Évora e o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. No total, mais de 60 investigadores portugueses estiveram envolvidos no desenvolvimento.
Foi ainda formado um Comité de Acompanhamento Especializado, presidido por uma personalidade de reconhecido mérito, com a participação do Center for Responsible AI, para assegurar as melhores práticas, princípios éticos e de segurança.
O que mudou entre o AMALIA inicial e o modelo final
A versão beta de 2025 era essencialmente um modelo de texto, construído sobre os alicerces do EuroLLM, GlórIA e v-Glória, com capacidade de resposta em português europeu. A versão final de 2026 representa um salto qualitativo significativo: é multimodal, processa contextos longos até 32 mil tokens e foi afinada com técnicas avançadas de Supervised Fine-Tuning (SFT) e Direct Preference Optimization (DPO).
O modelo final tem 9 mil milhões de parâmetros (9B) e foi treinado em supercomputadores com 64 GPUs NVIDIA H100. Mais importante: está disponível em código aberto (open source), gratuitamente, para que qualquer entidade — pública, privada ou académica — o possa utilizar, adaptar e evoluir.
O AMALIA hoje
Disponível no HuggingFace como amalia-llm/AMALIA-9B-0626-DPO, o modelo representa a primeira infraestrutura nacional de inteligência artificial em português europeu. Não é um simples chatbot: é um modelo base aberto, concebido para ser a fundação sobre a qual outros constroem aplicações específicas — na Administração Pública, na educação, na saúde ou nos serviços públicos.
A história do AMALIA é, acima de tudo, a história de um país que decidiu investir na sua soberania digital e na sua capacidade de produzir tecnologia própria num mundo dominado por gigantes estrangeiros.








