O silêncio a que ninguém deveria ser obrigado
Imagine que, de um dia para o outro, perde a capacidade de dizer “bom dia”, de pedir um copo de água, de chamar o nome de quem ama. Para milhares de pessoas com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), AVCs graves ou afasia, esta não é uma hipótese — é a realidade. E as tecnologias existentes, como o eye-tracking, são limitadas: caras, dependentes de condições ambientais e muitas vezes frustrantemente lentas.
É aqui que entra a Halo NeuroAI. A startup portuguesa, nascida na Maia, desenvolveu uma tecnologia que pode devolver a voz a quem a perdeu. E os primeiros resultados são profundamente emocionantes.
O problema enfrentado pelos doentes
A ELA é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta os neurónios motores, levando gradualmente à perda da capacidade de mover os músculos — incluindo os da fala. Estima-se que em Portugal existam mais de 500 doentes diagnosticados, e a cada ano surgem novos casos. Para estes doentes, perder a capacidade de comunicar é muitas vezes tão devastador como a própria progressão da doença.
“Sinto-me sortudo por ter falado com o Pedro, e espero que muitos outros possam seguir o mesmo caminho”, escreveu Alex Hern, jornalista do The Economist, depois de entrevistar Pedro S., um utilizador português da Halo com ELA. A frase capta a emoção de testemunhar alguém a recuperar a voz.
As limitações das tecnologias tradicionais
Atualmente, a maioria dos doentes com perda de fala recorre a sistemas AAC (Comunicação Aumentativa e Alternativa), como dispositivos de eye-tracking. Estas tecnologias têm limitações importantes: são caras, exigem calibração frequente, não funcionam bem ao ar livre (a luz solar interfere com os sensores), e dependem de equipamento fixo ou difícil de transportar.
“Há muitas situações em que não tenho a tecnologia de eye-tracking disponível, especialmente ao ar livre, onde não funciona muito bem. A Halo preenche essas lacunas”, explicou Pedro S., utilizador da tecnologia. O testemunho revela uma necessidade real e não satisfeita: uma solução portátil, que funcione em qualquer contexto.
Como a IA pode acelerar a comunicação
A Halo combina três componentes principais: uma headband não invasiva que capta sinais bioelétricos através de sEMG, modelos de linguagem personalizados que interpretam esses sinais, e um sistema de clonagem de voz que recria a voz do utilizador a partir de apenas 15 segundos de áudio. A comunicação processa-se a cerca de 30 palavras por minuto — três vezes mais rápido que os dispositivos AAC convencionais.
Além disso, a Halo oferece funcionalidades que vão além da conversa: permite fazer chamadas telefónicas (em fase beta), criar atalhos de voz para ações quotidianas, e integrar-se com outros dispositivos. O processamento de voz é feito localmente, garantindo a privacidade dos dados.
O impacto na autonomia e qualidade de vida
Recuperar a capacidade de comunicar — mesmo que de forma assistida — não é apenas uma questão técnica. É uma questão de dignidade, autonomia e qualidade de vida. Poder dizer “tenho frio”, “estou com sede” ou simplesmente “amo-te” sem depender de um cuidador para interpretar olhares ou expressões faciais é uma mudança profunda na vida de um doente.
Maria S., terapeuta da fala na APELA, resumiu o sentimento: “Isto faz toda a diferença para eles, a questão das mensagens de voz… devolver-lhes a possibilidade de usar a sua voz natural de forma intuitiva e rápida… estão a mudar o mundo para estas pessoas.”
O que ainda falta para a tecnologia chegar a mais pessoas
Embora os resultados sejam promissores, a tecnologia ainda está em fase inicial de adoção. A Halo já está disponível gratuitamente na sua versão base (app, extensão de browser e assistente de IA), e a headband está em processo de validação clínica em doentes de UCI. O grande desafio agora é escalar: passar dos primeiros utilizadores e testemunhos para uma solução acessível a todos os que dela precisam, em Portugal e no mundo.
A Halo NeuroAI representa um daqueles raros momentos em que a tecnologia não é apenas inovadora — é transformadora. E é portuguesa.








