Pergunte a um adolescente como se faz uma pesquisa na Internet. É provável que a resposta seja “pergunto ao ChatGPT”, não “abro o Google”. Este não é um cenário futurista — é o que já está a acontecer. Segundo o Pew Research Center, 64% dos jovens americanos entre os 13 e os 17 anos usaram chatbots de IA em 2025, e mais de metade recorre a eles para buscar informação e fazer trabalhos escolares. A Geração Z está a virar as costas ao motor de busca tradicional, e isso tem consequências profundas para a literacia digital.
Os números da mudança
Os dados são claros: uma pesquisa de 2025 citada pela Exame, feita com cerca de 2.500 jovens americanos entre os 18 e 28 anos, revelou que 65% já usam chatbots de IA como substitutos do Google em pesquisas do dia-a-dia. Outro estudo, da Search Engine Land, indica que 34% da Geração Z utiliza IA para pesquisar, enquanto plataformas como YouTube, Instagram e TikTok se tornaram motores de busca alternativos para 46% destes jovens.
O Google não está a desaparecer — mas está a perder o monopólio da descoberta de informação que deteve durante mais de 20 anos. Para os jovens, a pesquisa já não é uma questão de “que links devo abrir”, mas sim “qual é a resposta certa”.
O problema da literacia digital
Esta mudança não é isenta de riscos. A literacia digital tradicional ensina-nos a avaliar fontes, a cruzar informação, a identificar viés e a distinguir conteúdo credível de desinformação. Quando a pesquisa se resume a fazer uma pergunta a um chatbot e aceitar a resposta, estas competências atrofiam-se.
O risco das alucinações
Os modelos de IA generativa têm um problema conhecido: as alucinações. Inventam factos, citam fontes que não existem, e apresentam tudo com uma confiança inabalável. Um jovem que não aprendeu a verificar a informação pode tomar como verdade absoluta uma resposta completamente inventada. Isto é especialmente grave em contexto académico, onde trabalhos e investigações podem ser construídos sobre premissas falsas.
A perda do pensamento crítico
Pesquisar no Google exige um esforço ativo: escolher os termos certos, analisar os resultados, abrir vários links, comparar versões, formar a sua própria conclusão. Perguntar a um chatbot é passivo: a resposta vem pronta. Este atalho cognitivo pode estar a criar uma geração que consome informação sem a processar — que sabe as respostas, mas não sabe como lá chegar nem se são verdadeiras.
O que dizem os especialistas
Vários estudos e artigos de 2025-2026 sublinham que a transição para a pesquisa com IA não é necessariamente negativa. A IA pode ser mais rápida, mais acessível e mais personalizada. Mas exige competências complementares: saber formular o prompt certo, saber avaliar a qualidade da resposta, e saber quando é que confiar na IA e quando é que é preciso verificar.
A literacia digital do futuro não vai ser “como usar o Google”, mas sim:
- Como avaliar a credibilidade de uma resposta de IA
- Como detetar alucinações e viés
- Como combinar várias fontes (IA + web + livros) para formar uma opinião
- Como transformar informação em conhecimento, em vez de apenas consumir respostas prontas
O que acontece quando a IA responde mal?
O pior cenário é quando a IA responde de forma errada e ninguém questiona. Já há casos documentados de advogados que apresentaram em tribunal argumentos baseados em jurisprudência inventada por IA, e de estudantes que entregaram trabalhos com factos históricos incorretos. O problema não é a IA responder mal — isso vai acontecer sempre. O problema é uma geração que não foi treinada para desconfiar da resposta.
Conclusão
A Geração Z não está a abandonar o Google por preguiça. Está a fazê-lo porque a IA oferece uma experiência de pesquisa mais rápida, mais conversacional e mais intuitiva. Cabe a pais, educadores e empregadores garantir que esta transição não acontece à custa do pensamento crítico. Ensinar a pesquisar bem vai continuar a ser essencial — só que agora “pesquisar bem” inclui saber usar a IA como ferramenta, e não como oráculo.







