Mais do que um chatbot: o AMALIA como instrumento de soberania digital
Quando o Governo português anunciou o investimento de 5,5 milhões de euros no AMALIA, houve quem questionasse a necessidade de desenvolver um modelo de linguagem próprio num mundo onde a OpenAI, a Google e a Meta já disponibilizam modelos poderosos. A resposta está na estratégia de soberania digital e nos cinco objetivos fundamentais do projeto.
Cinco objetivos estratégicos
1. Soberania digital
O objetivo mais explicitamente assumido pelo projeto é o reforço da soberania digital de Portugal. Os LLM comerciais disponíveis no mercado são maioritariamente desenvolvidos por empresas privadas estrangeiras e otimizados para processar e gerar texto em inglês. Quando utilizados com dados sensíveis da Administração Pública ou de cidadãos, exigem a partilha desses dados com fabricantes externos, reduzindo o controlo nacional sobre a informação. O AMALIA permite que o Estado e as empresas portuguesas utilizem IA sem depender de infraestrutura estrangeira para processar dados sensíveis.
2. Preservação da língua e cultura portuguesas
Os modelos internacionais têm um desempenho significativamente inferior em português, especialmente na variante europeia. O AMALIA foi treinado especificamente para reconhecer e gerar texto em português de Portugal, distinguindo as diferentes variantes da língua e incorporando elementos da cultura, história e literatura nacionais. A legislação que enquadra o projeto é clara: o modelo deve reconhecer elementos da cultura e história de Portugal que os modelos estrangeiros simplesmente ignoram ou tratam de forma superficial.
3. Controlo sobre dados e infraestrutura
O AMALIA foi treinado com dados abertos e curados, incluindo o Arquivo.pt, e todo o processo decorreu em supercomputadores europeus (MareNostrum 5 e DEUCALION). O modelo e os dados de treino são disponibilizados em open source, garantindo que nenhuma entidade privada detém controlo exclusivo sobre a tecnologia. A infraestrutura de alojamento permanece sob controlo nacional e europeu.
4. Desenvolvimento científico nacional
O projeto mobilizou mais de 60 investigadores de 9 instituições portuguesas de ensino superior e investigação, criou novos benchmarks para avaliação de IA em português europeu (ALBA, P3B3, PHEB, CulturaVivaPT, SAUDADE) e gerou conhecimento científico que posiciona Portugal como referência em processamento de linguagem natural para a língua portuguesa.
5. Base tecnológica para empresas e Administração Pública
O AMALIA não foi concebido como um concorrente direto do ChatGPT. A documentação oficial descreve-o como um modelo base aberto, destinado a ser utilizado na construção de aplicações específicas. «O AMALIA poderá ser aplicado a diversos domínios de atividade, sendo necessário afiná-lo e treiná-lo com dados específicos dos setores de atuação, como Educação, Saúde, Serviços Públicos, entre outros.»
A legislação que enquadra o projeto
A legislação que cria o AMALIA é particularmente clara nos seus objetivos estratégicos: posicionar Portugal como referência internacional em IA, reforçar a soberania dos dados e da língua portuguesa, preservar e valorizar o património cultural e científico nacional, e estimular a inovação e a produtividade do tecido económico. O modelo insere-se na Agenda Nacional de Inteligência Artificial, apresentada de forma consolidada no primeiro trimestre de 2025, e na Estratégia Digital Nacional.
Um debate mais amplo: fará sentido cada país europeu ter o seu próprio modelo?
A questão é legítima. Num momento em que a União Europeia debate a criação de uma ‘União da Inovação’ para competir com os EUA e a China, fará sentido que cada Estado-Membro desenvolva o seu próprio LLM? A experiência portuguesa sugere que sim, desde que os modelos sejam concebidos como infraestrutura aberta e não como produtos comerciais fechados. Países como Espanha (com o ALIA, que fala castelhano, catalão, galego e basco) e os países nórdicos (com o Viking 7B, para dinamarquês, finlandês, norueguês, islandês e sueco) seguiram o mesmo caminho.
A resposta está na especialização: cada modelo nacional pode e deve ser interoperável, partilhando infraestruturas de computação europeus como as do EuroHPC, mas mantendo o foco na língua, na cultura e nas necessidades específicas de cada país. O AMALIA não substitui os grandes modelos internacionais — cria uma alternativa soberana para quem precisa dela.








